quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

All the romance is dead


Ao som dos carros a passar seguidamente por cima das poças de água, a brisa nocturna nas costas abana a lã do veludo dos casacos, enquanto ela força o queixo para cima e com os olhos fita o seu rosto vago, quase suplicando aos céus por uma só palavra daquela boca cerrada, muda. Muda, por favor. Ele de olhos postos no chão com um desespero na garganta que se não fosse tão pesado atravessava o ar e pegava fogo à cidade. Os dois corpos balançam inquietados, ele trinca o ar seco que tem na boca como quem sufoca e não há maneira de fazer com que o coração dela pare de explodir a cada batida. Não há gelo no Inverno que lhe arrefeça as veias e sinceramente já sente a visão turva de tanto querer vê-lo olhá-la de volta, e às tantas já bem o pode imaginar a fazê-lo em tempo real e tudo não passar de uma ilusão - mas quase palpável!... Enquanto ela pensa que duas palavras seriam o suficiente para mudar o seu mundo ele sabe que mil palavras não chegam para mudar o que têm. Há-de olhá-lo daqui a 50 anos quando tudo isto não for mais que uma sombra num lençol branco ao vento e ainda há-de sentir aquela escuridão a pegar-lhe fogo aos pulmões.
Enquanto isso naquela cabeça passam todos os momentos de insanidade, todas as mesas viradas do avesso, todas as vezes que ela desceu o vidro do carro e pôs os pés cheios de areia e sal para fora, sem querer saber se o vestido revelava as suas coxas douradas a quem passasse - e quem a via passar e rir com a cabeça inclinada para trás agradecia, e ela ria um pouco mais. E nem mesmo isso chegava para lhe provocar ciúmes, porque ela era do mundo, ela tinha nascido com o mundo e ela nunca havia de acabar aos olhos de qualquer comum mortal. Ela era o vento e o seu perfume estava à volta dele até quando ia correr sozinho de madrugada, e não havia ninguém que ele quisesse tanto e em quem visse tanto, e ainda assim esses instantes de puro esmalte não conseguiam fazer com que não explodisse por ver outro homem pôr-lhe o braço pelas costas ou dar-lhe um beijo na testa. Ele tinha a certeza: por mais anos que passassem, ia vê-la sempre como uma parte de si que lhe era negada pelo destino.
E ela recusava-se a parar de olhar para o seu futuro. Era só o que desejava e acreditava piamente, pelo menos naquele momento, que ele era o único que poderia tocar piano nas suas costelas em frente a uma lareira acesa e fazê-la feliz numa casa sem mobília, porque era o único que algum dia seria capaz de encher todo o espaço livre à volta dela, e ainda assim em vez de invadida, fazê-la sentir-se segura e protegida. Sabia disso desde o dia em que acidentalmente o encontrara a ajudar o seu avô a fazer a barba enquanto lhe perguntava, como se já não a tivesse ouvido mil vezes, que lhe lembrasse qual era mesmo aquela canção com que conquistaste a avó? e a assobiava por entre um sorriso, que se abriu ainda mais, mesmo que ainda num misto de feliz e envergonhado, quando a reconheceu no canto do espelho.
Ela suplicava-lhe - pelo que importa, deixa-me ser tua.

- [crying] I told him I love him.
- Really? That's wonderful.
- No, it's not, it's horrible. I thought that if I could finally say it that everything would change, but he is just as selfish and solace as ever. Only a masochist could ever love such as narcissist. Help me. 

E ele continuava a pensar que ninguém é de ninguém, e que ela merece melhor e que nunca lhe sai da cabeça, e que ainda assim, não podia dizer-lho. Fizesse o que fizesse, ela já o tinha desde o fatídico dia em que tropeçara trapalhosamente no seu pé estendido no autocarro e se estatelara no seu peito, como quem lhe deixa cair o verão em cheio na cara; e só por si ela já era tudo o que ele tinha a perder.
Qualquer um deles podia jurar que aquele momento impaciente à beira do táxi durou pelo menos, uma vida inteira.
Por todas as vezes que se haviam gladiado, por todas as vezes que já tinham sentido a pele um do outro a ferver de dor, por todo o amor que se absorve quando alguém respira ao nosso lado quando acordamos a meio da noite às escuras, e pela forma como aquele corpo dormente aquece o espaço à volta da nossa pele. Por todas as maneiras como já tinham experimentado vingarem-se um do outro, acabando por se magoarem sempre mais e mais, como se fossem um só, como se fossem um nó, a caminho duma combustão espontânea acelerada. Por todos os campos de minas em que já se tinham feito jogar à macaca. Tanto querer que matava a poesia, consumia todo o oxigénio do mundo e asfixiava o poder de qualquer pensamento razoável. E ainda assim, ali estavam eles, agarrados por algo que parecia pesar um camião, e nenhum deles conseguia dar um passo noutra direcção. Qualquer ciúme. Qualquer amigo. Qualquer antigo namorado ou namorada, conseguia ver reflectir naqueles pares de pupilas dilatadas tudo o que algum dia poderia nelas aparecer e reconheceria o sinal do que é real, neste mundo e no outro. E eles conheciam-se como mais ninguém e de tantas maneiras diferentes que toda a gente conseguia ver isso, e ainda assim surpreendiam-se sempre, como reflexos do sol em ondas agitadas - eram flechas que espelhavam uma energia tão instável e ao mesmo tão hipnotizante que era como se estivessem constantemente a atirar bolas de vidro a um outro na roleta russa de tentarem não se cortar. But
Russian Roulette is not the same without a gun, and baby when it's love if it's not rough it isn't fun.

Eram demasiados os fantasmas irremediavelmente partilhados. E havia todos os motivos do mundo para pararem de atravessar o caminho um do outro, mas era como se entre os seus poros houvessem alarmes que os avisavam um do outro, estivessem à distância que estivessem, paredes no meio quantas houvessem.
- Tu sabes...
Duas palavras apenas - não eram as que ela implorava - alteraram a posição daquelas cabeças: enquanto ele lhe dirigiu os olhos, e prometeu a si mesmo que havia de amar aquela rapariga até ao fim dos seus dias, ela desceu a face e a esperança, e quis que o mundo acabasse ali, porque de qualquer forma não tinha forças para ir até casa e já tinha uma lágrima a arrefecer-lhe a palma da mão e porque raio é que passavam tantos carros e de repente sentia um vento frio tão insuportável, e... como é que não se tinha apercebido dos velhos bêbados na esplanada do café dois metros atrás dela na calçada escorregadia?
Duas palavras bastaram para rebentar a bolha e ambos acordarem do aquário onde estavam submersos há minutos.
E ela sabia.
- Para sempre.
Duas palavras mais, dois sussurros claros que se completavam. Quis combater ainda as suas entranhas, era como se o corpo dela estivesse programado para ir contra tudo aquilo que ela alguma vez quisera para a sua vida. Mas ainda assim.
Ele beijou-a, e abraçou-a. Por um... dois... três segundos, não mais, encontraram a paz necessária nos ombros um do outro. E era como nunca tivessem descolado os seus ossos e os seus músculos quentes daquele pedaço de passeio.
Para sempre,
Para sempre ali ficou um coração, duas metades feitas para serem apagadas por novas memórias e relações mais felizes. Menos gritantes, menos lancinantes, menos óbvias e menos enraizadas. Mais tranquilas, mais cristalinas. Melhores para o peito e para os olhos.
Mas
Para sempre, ele lhe havia de guardar uma dança. Para nunca mais aquele beijo, que selava uma tentativa de compreender o que é o amor, e o que é ser alguém com outro alguém e porém morrer aos bocados, e esfarelar aquilo a que queremos dar vida.
Descolaram-se os lábios e ela rodou lentamente os calcanhares, enquanto ele lhe segurava carinhosamente a mão, deixando para ela a definitiva tarefa de descolar-se da sua, apenas facilitada pela força gravítica e pelo impulso da idade. E de cabeça baixa ela seguiu, rumo nem sabia onde, apenas para fora dali, enquanto ele a olhava pacificamente e colocava as mãos nos bolsos, sorrindo orgulhosamente por saber que tinha libertado a mais bonita coisa que alguma vez o amara. E ela sabia-o, embora não o visse. Deixava para trás o melhor homem que conhecera e sentia os bons futuros que ele lhe imaginava.
E ainda hoje, aquela travessa está marcada no mapa das duas metades livres daqueles corações, como um pionés enferrujado e aparentemente insignificante, mas que de qualquer maneira ninguém desencrava das pedras daquela calçada - porque nessa noite, até mortas elas choraram.




Young love.

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