Acho está para nascer alguém que me conheça. Seria tão bom.
E que eu conheça. Bem posso querer, mas... Nunca nos conhecemos uns aos outros.
(E choramos porque andamos uma vida inteira à procura de alguém que
-nos queira conhecer
-consiga conhecer-nos
-queiramos conhecer
-consigamos conhecer
e andamos a enganar-nos a nós próprios e finjimos perceber tudo o que vai na nuvem de alguém quando na realidade essa porra de nuvem não passa de uma imagem fofa de algodão que imaginamos e plantamos na cabeça de alguém porque queremos ser amados e queremos depositar o nosso amor nalgum lado, desesperadamente. Como se isso nos fosse salvar. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Se nos habituarmos à solidão estamos um passo mais perto de nos salvarmos e de fugir a essa droga de merda a que chamamos amor, que perseguimos, por mais más ressacas que nos tenha dado anteriormente, e embora saibamos que a próxima trip vai ser sempre infinitamente melhor enquanto parece curar a anterior, até ao momento em que a pessoa que quisemos para dealer nos corta os pulsos.
O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura...
E eventualmente percebemos que não há metades que se completam. Há pessoas que se acrescentam. E se acontecer, quão maravilhoso será pensar que apesar de tudo, estamos num sítio onde uma pessoa que queremos nos quer e podemos começar a tentar vê-la por dentro.)
Ainda agora estou para me conhecer a mim própria...
Mas por amor de Deus, há quem tenha tanta hipótese, oportunidade, demonstração, para nos ver, perceber, prever... sei LÁ, seria conhecer. E reconhecer nas nossas acções. E criar expectativas. "Adivinhar" o que faríamos em certa situação... E ainda assim... nada. Zero. Nem perto. Nem sequer ao lado, completamente fora.
É como se toda a gente andasse com uns óculos enormes, que nos deformam de uma maneira completamente absurda, e por mais que estejamos mesmo à frente delas, por mais voltas lentas que dermos, por mais "estás a ver? :)", por mais provas que prestemos... vão sempre ver a imagem que os óculos querem que entre, quer sejamos um barril ou uma girafa, e argumentemos que somos na realidade uma fatia de bolo, vão sempre, mas sempre ver-nos como um navio. E o que é que se espera de um navio? Que se afunde. (?) Na escória do mar humano, que não quer ver razões na tristeza alheia. Portanto chega de parar para pensar na opinião dos outros. Na realidade somos um constructo da nossa auto-consciência para nós, mas somos os óculos de mil e quinhentos gorilas a cada dia que passa e eu SEI LÁ que caralho vês tu com essas lentes sujas. Deus queira que me vejas bem desfocada. Porque quem me assusta são mesmo as pessoas que desembaciam esse pedaço cristalino e me deixam ali, nua, perdida, frente a um espelho com voz. E que sussurram quem sou enquanto me encaram e a minha pele pega fogo. Aí sim, f-u-d-e-u.
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