Olá avô, tenho saudades suas.
Estou aqui nem sei bem porquê. Lembrei-me de si e que acho que faz anos em Março, e senti-me a corar por não ter a certeza do dia e se já passou. E pensei como adoraria que estivesse aqui hoje para lhe poder dizer "Parabéns! Que faça muitos mais connosco todos em sua casa!". Agora quase que te estava para te tratar por tu, avô, mas como tenho quase a certeza que sempre o tratei assim quero continuar a fazê-lo, sei lá, faz sentido...
Sei que parece injusto tanta gente à nossa volta e em vez de virar a atenção para essas pessoas, virar-me para si quando já não o posso trazer de volta. Mas hoje lembrei-me de si -
lembro-me muitas vezes de si! - e não podendo falar consigo nem dar-lhe um abraço, gostava que me ouvisse.
E eu não sou nada destas coisas avô, não gosto de desrespeitar ninguém nem magoar quem o conheceu e amou, mas tenho saudades suas.
Queria-lhe dizer que se soubesse o que sei hoje tinha-lhe dito "Gosto muito de si." Mas eu não percebia as coisas, e sei que o avô sabia isso e que gostava de nós mesmo assim,
pequeninos.
Queria que sentisse como o admirava, como sempre que me lembro de si há uma espécie de brilho e calor à sua volta. Lembro-me sempre de como me fazia feliz e de como gostava de ir a Vila Nova a casa dos avós. Lembro-me bem de me darem a escolher a guloseima que quisesse da loja, como se não houvesse cá preço nenhum para os netos. Lembro-me do avô me dizer que lhe tinha ligado para lá um rapazito de Ansião a perguntar por mim, e eu
claro, do alto dos meus quatro anos ou quê, ficava a interrogar-me sobre qual teria sido... Lembro-me do avô, tenho quase a certeza absoluta, a tocar com aquela "concertina" azul e amarela que acho que era do Júlio. Também me lembro da sopa da avó, que quase me fazia arregalar os olhos de tão boa, e de me sentar com ela no alpendre, a darmos papa ao Júlio e ela a descascar-me ameixas, que eu gostava tanto, e eu ali, limitava-me a comer a fruta toda contente com o meu pequenito. Lembro-me da avó matar uma formiga com os dedos nus, e eu a achar aquilo tão bizarro, corajoso e engraçado, tudo ao mesmo tempo.
Sei lá vô, se fizer um esforço lembro-me até da sua voz. E isso aí é que complica, aquele fiozinho de dor que parece que acorda...
Tenho pena,
sempre tive, de que o avô tivesse estado presente na minha vida apenas por oito anos, acredite. Mas também gostava que soubesse que a sua presença na minha história, na realidade foi muito mais longa que isso: esteve lá antes de eu nascer e estará cá sempre no que contarmos aos outros.
Outro dia fiz dezoito anos, acredita? A sua menina... E já não sei a que propósito falei de si a dois dos meus melhores amigos.Na altura em que soube que estave doente, quis ter nascido mais cedo, quando nasceram as minhas primas e os meus primos, para poder ter estado consigo todo aquele tempo. Juro.
Também não quis que sofresse o que sofreu, e nunca era capaz de perceber porque é que tinha de passar por tudo aquilo quando não o merecia, de todo.
Onde quer que esteja avô, saiba que tenho saudades suas. Saiba que me agrada muito o facto de ter sorrido a primeira vez para si, quando podia ter sorrido para qualquer outra pessoa. Saiba que o tenho como o exemplo natural de boa pessoa, e de tudo o que isso significa para mim. Saiba que tenho um orgulho
do caraças de ter tido uma ligação consigo, de ter sido
sua neta.
Saiba que quem me dera que ainda estivesse aqui, a sorrir para mim, a sorrir comigo, a perguntar-me pelo rapazito, a perguntar-me se a escola me corria bem, a destribuir o pouco que tinha atenciosamente escalado pelos seus netos (acredite que me parecia a lotaria do coração!), a ver os mais pequeninos, a brincar com eles e a chamar-lhe
"mê menino"... tudo isso e muito mais.
Saiba, avô, que a sua alma enchia a casa, onde quer que estivesse. Escrevi isto com bondade, mas não é que estive o tempo todo a rezar para que ninguém me entrasse pela sala adentro enquanto falava consigo, para não me verem toda baba e ranho?... E tenho muito que pensar antes de mostrar esta conversa a alguém, porque há coisas meias feitas de coração que são só nossas, e a partilha não pode ser uma asneira.
Mas quem conheceu este grande
Avô Júlio,
a mal também não me leva,
pois não?

Eu ouvi um passarinho
às quatro da madrugada,
Cantando lindas cantigas
à porta da sua amada
Ao ouvir cantar tão bem
a sua amada chorou.
Às quatro da madrugada
o passarinho cantou
