Não sei nada sobre ti, nem sobre nós, porque o que estava dentro de mim manteve-se, mas pegaste no que deixei guardado no teu coração e puseste dentro de um caixote à porta de tua casa, e assim não sei nada sobre ti, porque me expulsaste e rompeste o nós.
Estão lá dentro, dessa caixa cheia de nós invisíveis, todas as coisas que guardámos, tão secretas, tão nossas, tão sempre (e o sempre sempre foi a palavra que mais me fez doer, mais me fez morrer por dentro).
E eu fiz tão mal em trazê-la para casa; devia fazer como tu, pô-la à porta, e esperar que tu, ou mais provavelmente um estranho, tropeçasse nela e visse em tudo aquilo um monte de tralha, farrapos de gente que perderam o brilho, e a jogasse ao lixo.
Mas eu trouxe-a para casa.
E agora que a trouxe para dentro não a consigo pôr fora, e vai doer sempre, mesmo quando estiver velha, poirenta, recôndita... Porque eu tenho aquela incapacidade de pôr as coisas que me pertenceram no lixo, como as pessoas para trás das costas.
Podes sorrir, podes ter aqueles gestos tão teus, de agires como uma pessoa perfeitamente normal e me deixares a sentir uma Ofélia, e a pensar que afinal ainda te reconheço, esse brilhozinho. Mas dói mais, por vezes, porque o brilhozinho que tinhas, que era só meu, que era só para mim, é pena. Pena.
E com essa pena, esporádica, de último recurso, de quem já não me pode ouvir nem compreender, descamas-me o coração, e não o deixas passar de carne viva.
Mataste-o, ele precisa de desintoxicação, sabes? - Mas quem é o alcoólico que se fecha num quarto com uma garrafa de vodka, seriamente... Precisa de respirar, parar de respirar o que foi o nosso amor e começar a respirar por si, a acreditar no que pode ter para dar.
O nosso problema era sermos tão improváveis, tão inexequíveis, tão inadequados e tão impossíveis, que éramos perfeitos um para o outro, em tudo o que fosse levado ao extremo. O nosso problema, acho mesmo, que nunca foi eu para ti ou tu para mim, foi sempre nós no meio dos outros, porque sempre que os problemas eram nossos eram tão simplesmente bem resolvidos. Sabes isso, sabes que foi isso, até deixar de ser, até deixares morrer.
Porque é que desististe, não sei. Provavelmente forcei-te. Provavelmente devia ter lutado por ti, rastejado aos teus pés antes de te deixar escolher, em vez de o fazer agora, que já não há nada a fazer. Provavelmente devia-te ter mostrado ainda melhor que te queria comigo antes de me rejeitares. Provalvemente isso tudo, e sou só um cachopo. Mas esse cachopo achava que não se devia humilhar, achava que não estava errado e que mesmo que tu visses tudo isso, achou que tu devias ter tanto de o dizer como ele tinha. E tu não percebeste isso, não percebeste que eu precisava, no meio da merda que sou, da merda que disse, não percebeste como eu precisava, como eu queria, que tu me dissesses o que querias. Fosse isso o que fosse, fosse isso o que mostras. Não me recrimines agora por não te entender: tu nunca te explicaste, nunca me explicaste, o que deixei de ser para ti.
...
Mas foste uma bela vacina. Espero que não haja quem se apaixone a sério por mim nos próximos tempos, porque vou fazê-lo sofrer. O meu ressentimento és tu, e és tu que eu vou espelhar no próximo (lol, que próximo...). Não vou dar nada meu, a ninguém, assim. Porque a quem quer que dê, mais tarde ou mais cedo, são promessas vãs: o que dão ou fingem dar, tiram-me tudo das mãos e viram costas.
Não vais ser assim tão mau; vou ter de lidar contigo e isso dói que se farta, ver as tuas mãos pousarem noutros braços, tocarem outras faces, mas tu já me deixaste e não vais voltar a chamar por mim, eu sei, para o bem e para o mal, tu não te arrependes.
Não te arrependas, porque dói tanto, mas não dói tanto como a incerteza, acho eu, e nunca podemos ter aquilo que queremos. Por isso não te arrependas, nunca mais me abraces, nunca mais me beijes, nunca mais olhes para mim, nunca mais sejas o meu melhor amigo e confidente, nunca mais me toques, nunca mais. Porque isso só me faz querer-te de volta, sabendo que não te poderia ter, nem deveria querer. Porque depois de tudo, agora és tu quem tem razão: por mais que eu goste de ti, não vai haver nada que eu faça que emende o que tu fizeste; não vai haver nada que eu faça que te traga de volta, e muito menos que nos traga de volta.
Sabes que me dói, e de alguma fora tratas-me mal por dizer que a ti não te custa.
Mostras que te preocupas, às vezes, mas isso não é nada, às vezes... Nada.
Tu não és o pior, sempre foste o melhor e eu sempre fui muito errada, mas devias-me ter ensinado: devias-me ter explicado que um dia devia esperar por isto, por te ver virar as costas sem avisares, e sem olhares para trás.
Devias-me ter avisado que tu seres o perfeito normal e eu a estranha dramática não ia resultar. Devias (oh e se calhar foi o que tu fizeste) teres-me mostrado que aquilo que eu pensava que eram os nossos encaixes não era tão forte como as nossas falhas.
Devias-me ter dito que um dia ia ter muitas saudades tuas, e que não, não ias ser o meu príncipe encantado, e que não, o facto de acrescentares para sempre aos meus sonhos não ia fazer com que não te fartasses.
Espero um dia ter-te alojado no sítio certo, e espero divertir-me muito até lá. Porque não é fácil, mas devia ser. Eu fiz por merecer.
Eu tentei ser feliz, embora não saiba nada.
Eu tentei ser feliz, embora não saiba nada.
1 comentário:
Nem tem palavras. Eu sei o que sentes, qualquer coisa estou aqui. E eu estou para sempre! Não é uma promessa vazia :)
Ly always!
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