quarta-feira, 22 de setembro de 2010

"Carta" ao meu amor

Meu amor, como é, como é que vai ser?

As luzes passam, os olhares fixam-se, a humidade do ar vai caindo, o quente amena até ficar frio...
As crianças crescem, aos adultos encargos, aos mais velhos, bem, o tempo.
E nós?
As folhas não tardarão muito a começar a cair, pelo frio que se faz sentir assim que a noite chega, e ao anteceder a madrugada.
Depois acordo gelada e vazia, sozinha no quarto.
Não se dorme assim tão bem assim, aqui.
Por estúpido que pareça dito assim: os dias passam depressa e as semanas passam devagar.
É completamente descabido dizer isto? Não sei, é que acontece... E hoje é quê?, quarta-feira. Quarta feira. Se ainda falta tanto tempo para acabar a semana porque é que já não tenho a mínima lembrança do fim de semana?, é como se tivesse sido há anos atrás - arrisco mesmo a dizer.
É tudo tão vago, as picardias das pessoas já nem sequer fazem sentido. Já nem sequer me zango o suficiente para inconscientemente achar que vale a pena pensar numa resposta - no máximo tenho muita vontade de bater em alguém.
Não há mesmo vontade de fazer um esforço, porque faça lá o que fizer as coisas que mais me incomodam não mudam.
Não há sequer aquela vontade, aquele fiozinho de esperança que é acreditar que daqui a uns meses já vai ser tudo muito mais natural, mais normal... Porque em questão de dias (que passam rápido dentro de semanas milenares e vagarosas) isso já aconteceu. A revolução já começou, já passou por mim, já berrou a toda a minha volta com as vozes da rua, a revolta das cornetas, os baques secos das pedras da calçada como uma fanfarra... E eu não lhe disse nada. Nem sequer tenho a certeza se olhei à volta, deixei-me estar quieta...
E mesmo depois dela continua a não valer a pena. É como andar aqui à espera que o tempo passe.

Andar à espera que o tempo passe!
E ele não passa. Ele não passa por mim, obriga-me a passar por ele, a arrastar-me enquanto todos à volta gracejam e disfrutam dele, como que em cima de uma passadeira rolante.

E corre sofia, corre... Correr sempre foi uma boa terapia: enquanto é o vento fresco a visitar-te a cara morna, não são palavras e sítios inóspitos.
E é tão fácil, aparentemente.
E andamos aqui, nós, dois ou três a olhar uns para os outros e a pensar (acho eu) "havemos de ficar todos tão felizes quando pudermos acabar com isto!..." vermo-nos livres desta sustentação mútua, em que tentamos preencher o tempo uns dos outros (penso eu, outra vez), mesmo sabendo que o que nos interessa e o que precisamos uns dos outros não é que nos preencham o tempo, mas que nos deixem vivê-lo e aproveitá.lo num outro contexto espacial:
não é a hora que é errada, é o sítio.


Vá, estou simplesmente saturada, como já tinha estado tantas vezes antes. Mas agora... é ver partir os navios e ficar a olhar, e ter de pensar "o meu também é muito bom, só que também é assim tão mau...". Não pertenço a outro navio. Não envergo outra cor. Não tenho outra tribo. Mas espreitei para fora. Mas deixei-te entrar, também com a tua, e viver no meio de nós, e agora que te tinhas misturado, saltaste fora. Como quem se desvia da rota e sabe sempre que tem que continuar a vida noutro cruzeiro, mais tarde ou mais cedo, consoante a maré, até ao próximo porto.
Mas parece que te é tão fácil. Para mim antes era assim, mas tu desensinaste-me e eu com todo o ávido gosto, deixei-me desaprender.
Agora eles recebem-me de braços abertos e sorrisos nos lábios e sabem o que sinto, mas não há forma possível de me pousarem de novo naquele estado natural, gracioso de "impossibilidade de ser infeliz" em que graças a Deus se encontram. E não sou infeliz, estou só estática.



E tu, meu outro ex-amor, pensei em escolher todas as palavras, cada palavra cuidadosamente. Meticulosamente, para que não brotassem dúvidas em solo sagrado, mas já me despistei e deixei o jardineiro cortar os espinhos à rosa errada, e agora a seiva vermelha não pára de correr por eu querer.
Portanto não faz mal, porque o mal já está feito.
Vou continuar esta escrita inconsciente, adolescente, infantil inebriada.

Durante muito tempo pensei, acreditei, com tudo o que tinha dentro de mim que ainda não se tinha esgotado, que eras tu, senão o meu grande amor, definitavamente o meu primeiro amor. Nunca o meu primeiro grande amor, porque pensei que igual a ti, nunca iria haver ninguém. E até hoje não sei até que ponto é que foi esta estupidez. Hoje tento pôr tudo em pratos limpos, lúcidos, translúcidos, e equiparar situações. E sabes uma coisa? Ainda não percebo. Ainda não percebo o que querias de mim. Era a tua irmã, que sempre fui? Ou era tua amiga? Ou era só alguém que não conseguias conhecer mais? Ou conhecias-me mesmo como um mapa de olhos fechados, como me fazias sentir?
Tinhas medo de mim? Como eu tinha do teu ar importante...

Não sei. Eu gostava tanto, mas tanto de ti.
Que foda-se, sinceramente, um dia se tiver uma filha, não a vou deixar gostar de alguém assim. Mais tarde mostra que não faz com que não valha a pena nascer, mas não seria capaz de assistir conscientemente ao sofrimento de uma miúda assim.
E era tudo tão pouco palpável, tudo tão invisível. Ainda agora tens bocados de mim que me roubaste e prendeste naquela puta daquela escola, onde se passavam os meus dias. Quando os meus dias deviam ser um estoiro, quando devia ter berrado e ouvir muita música de merda, quando devia ter idolatrado as personalidades erradas e usado roupa cor de rosa, quando devia ter feito tudo isso, tu eras tudo aquilo que sempre precisara para sustentar a minha diferença. Através de ti podia viver num mundo aparte, e perfeitamente justificado, porque nunca podia contar a ninguém aquilo que tão facilmente mexeria com toda a gente. E tu nem sabias, ou sabias? Nunca hei-de saber porra, acho que não.
Nem vou falar mais, nunca hei-de saber se tudo o que chorei foi tudo o que tinha em mim para chorar, na minha catarse.

E isto tudo para dizer,
- que te quero, genuinamente, todo o bem do Mundo. Para mim és como um irmão, e tenho uma pena enorme de não conseguir fazer mais por ti, e de não saber, (por ser estranho para mim própria estabelecer limites irrisórios) quando é que posso ou não demonstrar que me preocupo com o teu bem estar e com a tua felicidade.

- e, mas principalmente, que estava tão enganda.
E tenho tanta pena disso. Do tempo que perdi a crescer, do que me doeu até não ter mais ossos para sentir as pancadas fundas e secas.
Mas quando penso nisso, tenho tanta sorte. O tempo que perdi parada, o meu coração cresceu, ganhou um músculo que só se corta à faca pela mão de quem a recebeu da minha.
E eu não sabia onde ele estava, o meu coração. Não sabia onde ele pertencia.
E agora já sei.
Ele não era meu e não me pertencia, e por isso tantas vezes me fez contorcer de dor. Ele estava simplesmente numa espera impaciente, ansioso por encontrar aquilo que já sabia que era dele, que lhe pertencia. Faltava-lhe metade para se completar, e por isso aquele bater arrastado, de quem vai coxo, em dias maus, e aquele tremer espavorido de borboleta antes de se conseguir metamorfosear, em dias sem explicação racional.
Ele, muito antes de mim, já sabia o que era certo.
Já sabia o seu lugar.
Já sabia a direcção na qual devia caminhar.
Já sabia onde era que se ia sentir em casa.
E por isso é que lhe custa tanto agora, quando tem de voltar a dormir sozinho, descompassado.

E como ele o sabia e de início me guiou, como que instintivamente e a lutar pela sua sobrevivência, soube-o eu mais tarde.
Encontrei-o. O meu único primeiro e grande amor.
É ele, ele. Ele está lá.
Está lá, está aqui, estará para sempre.
"Aconteça o que acontecer."

E ironicamente, embora tenha descoberto que para mim, e em relação a ele, és por definição o pretérito mais que perfeito, para ele não tenho tempo verbal.

E isso, agora para ti meu bem, só pode ser bom. Porque ainda não inventaram um tempo verbal que conjugue o sentimento para sempre,
indefinidamente, infinitamente.


"O meu coração é teu para sempre."
Amo-te, Diogo.



I won't back down - Johnny Cash

I'll try and listen.

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