Há dias em que sinto o sangue a latejar na cabeça, o sangue a percorrer-me o corpo, todos os tecidos que respiram, o tremer opaco dos ossos, a água que me corre dentro dos olhos e o peso dos pulmões, mais fundo.
Há dias em que num suspiro abro a boca, escrevo as palavras, e da mesma maneira que o meu dedo trémulo levita sobre o botão "enviar", a minha respiração aquece o ar à volta, os maxilares movem-se, tentam articular um som, mas
são interrompidos, todas as vezes, pelos meus dentes que se cerram e os olhos desviam-se das palavras que tinha, tenho, aos gritos dentro de mim, aos murros, a querer esfaquear a máscara que as envolve carinhosamente, como uma mãe a querer proteger um filho de se magoar.
Há dias em que te vejo e me apetece agarrar a tua mão, apertá-la contra a minha, até a tua pulsação ser a minha pulsação e sentir uma pulsação. Até o ar passar dentro dos meus pulmões, mais ameno, mais doce, mais perfumado, mais leve. Até o meu sangue não ser gelo a quebrar-se a cada passo, como vidro partido a ameaçar romper-me as veias finas e azuis. Até ao ar não ser quente, pesado, sufocante e nauseante.
Há dias em que gostava de perceber porque é que é tão difícil ouvir. Porque é que o ouvir, a reacção dos outros, de quem te quer bem, te fazem tremer quando pensas nas palavras que tens para lhes dizer.
Há palavras que ficam cá dentro e não te enganes, quando sentires no meu pescoço o sangue a pulsar, não é ele, são elas a querer falar.
Tem de haver sempre mais que uma opinião, tem que haver sempre mais que um calar - e há sempre tanta coisa mais que tenho para te contar!
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