Via a tua pele morena aquecer a atmosfera enquanto caminhavas confiante e alegremente pelo bar adentro. Diabos me levem se tinha de ter sentido na espinha uma vontade tão inconsciente de me virar para trás precisamente naquele momento. Eu já sabia que havia algo algures no meu pescoço, como uma espécie de all seeing eye, daqueles que se vêem tatuados, que jogava contra mim cada vez que estavas por perto. Era como se te sentisse ainda antes de saber que te sentia. O que me deixava confusa era, nas entrelinhas do meu coração a bater, que alguém que sabia caminhar a Terra tão levemente como tu poderia algum dia olhar para mim. Quer dizer, tu podias olhar para quem quisesses, e fosses feio se o quisesses ser, isso não mudava nada. Tu podias olhar para quem quisesses. Porque tu vias as pessoas. E isso atravessava-me, porque o simples facto de alguém poder conversar comigo em silêncio sem me avisar para fechar os estores dos pulmões era aterrador. O que é que será que acontecia quando me vias olhar especada para a parede? Ou quando passava uma unha na outra num ciclo repetitivo? Será que conseguias ver o que me passa pela cabeça como quem joga ao Wally? Por momentos, às vezes, dava contigo a espreitares com um sorriso meigo, por trás de um cortinado, que é como quem diz por trás dos olhos castanhos, e tinha a sensação que era como se estivesse sentada numa aula e escrevinhasse soturna num caderno, sem saber o quê, mas que tu eras o papel e de alguma formas entendias o que nem eu sequer percebia como entregava tão concentrada e distraidamente.
Via-te entrar e virar a cabeça, a percorrer o café com os olhos e um ar descontraído, a sacudir o casaco dos ombros. Juro que nunca vi ninguém chegar da rua numa noite de inverno que não trouxesse uma nuvem de frio, e mesmo assim tu pareces trazer o fumo quente de quem é feito de outra poeira estelar, vento solar sugado de um universo paralelo. E eu sem perceber porquê, aqui feita burra, especada, ainda voltada para a porta, e sabe-se lá há quanto tempo já entraste. Por mim pode ter sido há dez anos porque sei que não me cansava de olhar, mas por outro lado tenho a certeza que o meu coração parou quando te vi, e dizem que não aguentamos muito tempo em... paragem cardio... e... respiratória? Deus me ajude, será que foi isto que a minha avó sentiu a primeira vez que viu o meu avô a passar de bicicleta? Ela jurou-me com aqueles olhos verde mar que estava sentada no muro do adro que tem - que eu vi e sei e também já lá me sentei em chegadas e partidas - 4 metros, e por momentos pensou que tinha tombado. Só teve a certeza que não quando olhou para o fundo do altar e ele estava lá, alto e elegante pronto para lhe dizer que tinha a vida toda para lhe dar. E deu. E acho que essa vida toda passou e ela sem aterrar daquele muro abaixo, a olhar para o meu avô a descer a recta contra o vento e contra o sol.
Mas e... Será que foi isto? Porque cada vez que te vejo acho que é outra vez a primeira, nunca é demais e acho sempre que não nos conhecemos. Não acredito que te conheço; dizem que é mais provável morreres a caminho de comprar o bilhete, do que é ganhares a lotaria. E eu acho que ainda não fui abalroada senão pela tua presença... Só para um momento depois me lembrar que a tua inteligência não é nenhum handicap (terás tu algum?): simplesmente esconde e se esconde perante tudo o que sentes. Já te vi dezenas de vezes abrires o coração como quem entorna um jarro de água pelas costas no verão, já vi que estás para lá de tudo aquilo que o comum mortal - banal emocional - se sujeita, e que aprendeste não sei como coisas sábias que eu ainda não quis dizer a ninguém. E sabes chegar como algodão e poisá-las no canto da minha orelha como uma criança que conta uma piada. Não tem graça nenhuma que me faças achar que és uma criação única e que caminhas numa linha idêntica à minha, a uma distância palpável, no entanto sempre paralela.
Enquanto entras e não te sentas, eu já dei trinta e quatro voltas na cama a pensar como posso fazer com que essas duas linhas paralelas arranjem maneira de se entortarem juntas.
Mas vai, vá, senta-te. Não sem que antes passes e empurres o ar à tua volta com qualquer coisa que me faz cócegas no estômago e me acenes delicadamente um boa noite, sorridente, tão somente duas palavras, enquanto te diriges para a mesa onde te esperam.
Tenho a certeza que se tudo correr bem, ainda vais arrancar algumas palavras de ti próprio antes que eu durma hoje e que me vais explicar o que é que me andas a tentar dizer, porque entretanto já me virei e respondi tudo bem? e sei que a tua vénia foi uma promessa de mais uma troca tardia de ideias.
Serás o primeiro que não temo. Até para partires um coração terias a delicadeza de fazer tudo valer a pena... É caso para dizer que deves ser uma daquelas cicatrizes de infância - nunca no
meu perfeito juízo me encolhia perante sete eventuais pontos no joelho se isso
significasse menos uma tarde fechada em casa, não é?
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