A falta de amor no teu peito queimou-me por dentro.
E não foi a falta, foi o facto de ele querer transbordar como facas que me feriu. E não só me feriu, fere-me agora à medida que relembro o tic tac dos teus dedos despreocupados na minha pele indefesa, nos meus cabelos adormecidos.
Ficaste e enterraste a cara no meu colo, disseste shh, olha aí que o meu pai saiu agora do turno, e eu prometi com um desculpa atrapalhado, e um sorriso, envolto num gargalhada tímida - a querer nascer - que ia falar mais baixo. E falei, anjo, falei tão baixinho que parei de falar para te ouvir despejar o que quer que seja que trazes aí dentro que faz de ti querer ser tão egoísta... E parece que dás o que tens mas não deixas de o esconder todo por trás da máscara com que alimentas o teu próprio reflexo. E eu sem saber, estava a dar a parte de mim que recebe, estava a deixar-te encaixar sem me preocupar que o fizesses de olhos fechados, tanto era o medo que tinhas do embate.
E contra o teu peso deixei-me abater, nunca vi ninguém tão leve e tão morno, que me custasse tanto descrever. Queria poder amenizar as palavras, porque é isso que és, ameno; mas de repente penso em cada vez que choquei contigo, e senti que choquei de peito aberto contra uma parede de rochas escarpadas, e não consigo evitar que te aguzides na minha memória, crivada ela por um misto de resignação anterior a tudo, por e uma centelha de dúvida - uma faísca de "uma no milhão". E esta faísca vem da tua insistente e persistente provocação, da forma como me pegas ao colo como se eu fosse uma flor que arrancas e atiras de novo para o chão, e nem sequer reparas que pisas... Porque te apetece, porque achas que podes, porque te faz impressão que não te tenha pedido para voltares para acabares o que tinhas começado: retiraste, rasgaste-me as pétalas uma a uma «mal te quero, bem te quero» e paraste quando estavas prestes a puxar a última - ...te quero. E voltas de vez em quando, chutas-me com o pé, regas-me as raízes com um sorriso para ver se ainda me deixo dançar ao vento, e quando te apetece voltas a pegar-me pela pétala deficiente que sobra com as tuas mãos fortes e desenhadas, como quem diz a uma criança "vou-te apanhaa-aar!" e eventualmente apanha. Ou não. Conforme....
E sabes, que puto lindo era esse. E sabes, que orgulhoso me pareceste do que vives, qual saco de areia e conchas que trazias cheio da praia e quiseste despejar todo para cima de mim, para eu me roer de inveja. Que criança. O teu melhor e o teu pior. A criança que fazes questão de ser e reforçar. De reforser.
E eu gosto de ti? Não sei. Eu gosto de qualquer coisa em ti? Não sei. Não nos conhecemos. Eu sei que é como o mar quando puxa. Podes lutar e debater-te, podes entrar em pânico quando vês que te leva cada e cada vez mais para mais longe da costa, podes afogar-te numa onda que te empurre para águas mais profundas... Ou podes tentar boiar, e deixares-te ir à tona, embalada pelo perigo, docemente carregada por uma frescura mortífera, a respirar um ar que nem conheces - parece veneno a esgotar-se - beijada por um sol que te tenta acalmar o ritmo cardíaco, embora possas continuar sempre a ouvir o bater frenético do teu coração, que te rebenta com o peito e te quer bater de encontrão nos dentes brancos... Mas por mais atemorizadora que possa ser a sensação, e talvez pior a dúvida que não poder espreitar provoca «quando será que isto passa?», sabes que é a única opção que tens, se queres ter uma hipótese esperançosa de chegar vivo. Onde? Não interessa. Desde que chegues, a algum lado, pior ou melhor que aquele de onde partiste. Mas chegar é a única coisa crucial: Chegar, vivo.
estou a boiar, um bocado, por enquanto, por ti. Mas tu cantas bem, não te preocupes. Doce, raw diamond...
Sem comentários:
Enviar um comentário