domingo, 26 de dezembro de 2010

Crónica de um dia normal

Estou farta de gajas que falam de amor como se tivessem tirado um curso sobre mulheres e homens, como se me conhecessem, como se te conhecessem, como se conhecessem os nossos pais e os nossos avós, as tuas paixões e as minhas desilusões. Como soubessem ponta de corno. Tias.
Tias que um dia tiveram a sorte de arranjar um dandy com uma nota preta na carteira e um certo charme da linha, que cheira a Armani e veste Lacoste, que fala de economia e joga
golfe e que trata os pais por você.
Tias que tiveram a sorte que o país e nós lhes demos de manterem as suas riquezas à custa de romances pseudo românticos e pseudo actuais, e pseudo abrangentes - como hóroscopos. Romances horóscopos - parece que acertam.
Tiveram a sorte de terem um bom metabolismo, e comerem que nem cães e não engordarem, também por fazerem ginástica porque têm tempo, e comerem saudável porque tem dinheiro, e viajarem porque dão a cara, e terem vestidos pretos com que nunca se comprometem, e um colarzinho de pérolas que não era nem da mãe nem da avó, veio antes do bolso do darling numa noite estrelada.
(O darling que percebe tanto de política como de injustiças sociais, mas à custa do seu after shave e do seu rolex lá vai subindo a pulso na vida, e que por acaso tem uma mãe insuportável que adora o seu menino de ouro e que não admite perdê-lo para a querida, que não é flor que se cheire, acha. Mas o querido e a coquete seguem sorridentes, porque as tias escrevem sobre o amor.)
Tias que pintam o cabelo, e fazem as unhas que não se sujam na cozinha, e nunca estão mais doentes que engripadas, e nunca têm um pêlo no corpo ou dentes menos radiantes, nem nunca espirram nem arrotam mais que baboseiras fúteis de quem acha que sabe tudo na vida e tudo da vida.
Pois bem, ninguém sabe tudo na vida: nem eu, nem vocês, nem ninguém. Por isso vou deixar de ler as vossas citações de mulher moderna que nunca viu mais que a modernidade de quatro paredes de betão e que para lá da moradia na Arrábida, a herdade no Alentejo foi o mais rural a que chegou - "ai aquelas planícies douradas, um charme... tá a ver?"

Tou a ver tou. Para vocês férias é Palace Hotel, para os outros é parque de campismo. Para vocês comida é gourmet, para os outros é bitoque. Para vocês sair no Verão é ir a uma festa na casa da Bibá, com as crianças loirinhas numa sala colorida e os adultos a degustar vinhos no salão, para os outros é grelhada mista em casa dos amigos, com toda a gente a comer na mesma mesa. Para vocês é cocktail, para os outros é sangria. Está bem, tô a ver.
Beijinhos querida, mas não me venha cá falar d'Amor como se o Amor tivesse nascido no solar dos seus paizinhos, ou na quinta dos seus tios, tá a ver?
Vou deixar de ler as vossas tretas feministas, nem que seja só por hoje.

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