sábado, 9 de outubro de 2010

Escrevistontem

Não tenho nada que chorar, mas se tiver que ser, que seja no teu peito. Ao menos valem a pena, as lágrimas.

O vento frio e húmido era uma mera sombra na paisagem: tornara-se... nulo, por esquecimento.

Não seria correcto dizer "no meio do abraço", porque nomear um meio implicaria ditar a existência de uma divisão entre duas partes. Portanto,
no quente do abraço, os limites passaram de físicos a incorpóreos, e o frio exterior isolou a fusão entre os dois ritmos cardíacos. Sem notar, mais uma vez, ela viu-se atraiçoada pela incorporação da sua voz e apenas conseguiu sussurrar Amo-te.,
Ouviste?

harmoniosamente, numa espiral, descolaram-se os corpos por meio de aguçar os sentidos

Ham?

e os olhares fixaram-se na pergunta.

Eu amo-te. Ouvis...

No calor das pupilas dilatadas, ele ouvira a metade que faltava do seu
Eu gosto de ti.
E tenho saudades de nós... Mas...

Tocaram-se os rostos, e ela tentou fintar a réstea fresca de lágrima que lhe ardia no contacto. Seria imprudente, e foi, uma lágrima achar-se no direito de tentar impedir que se unisse aquilo que nunca está, nem estivera, separado.

Sem que ele soubesse, num movimento os seus olhos ajoelharam-se e imploraram um sentimento tão grande e com tão poucas letras; para ela, poder ler-lhe isso tão somente na pele que a tocava na ponta do nariz, e dar-lhe o que sempre de mais certo tinha em si, era a melhor coisa do Mundo - e dar porque se quer.

E soou um repetido, convicto, mais que sussurro, e certamente com a vontade de uma verdade,

Amo-te.

Os lábios encontraram-se novamente em casa, lugar de olhos fechados e abraço uno.
Se à primeira ele perguntou, ouviu e a apertou contra si, agora ela era em si.

E, indubitavelmente, ele era nela.

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