quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Já deu.

Quando escreves tu perpetuas.

Ninguém se ia lembrar do que sentiu naquele dia, tin-tin por tin-tin, a menos que nalgum sítio estivesse escrito, que naquela data, aquilo tinha acontecido.
E quando esse aquilo acontece dentro da minha cabeça, é mais provável que seja eu a continuar a lembrar-me e a perceber o texto e os porquês, e o que está lá e o que foi lá parar, o que aconteceu e o que foi imaginado.
É como aquelas pessoas que escrevem o nome na areia e coisas assim. Parece mesmo bem, parece que a areia estava à nossa espera, como quem espera pelo tatuador, que vem com as agulhas, como nós vamos com os dedos, e nos escreve na pele palavras que vão ter que perdurar, forçosamente, à custa de não as podermos apagar. Pelo menos nós queremos, desejamos, acreditamos piamente, naquele momento, ou naqueles momentos, que vão manter o seu exacto significado durante todo o tempo pela frente, indefinidamente.

E é aqui que entra o mar. Não dá para perceber como é que não o vimos chegar, se calhar estávamos distraídos pela areia, porque, oh, ficava tão bem. O que é certo é que ele estava lá, bastava um olhar por cima do ombro, um desvio de atenção pelo canto do olho, e teríamos tomado consciência, tínhamo-nos apercebido de que ele vinha na nossa direcção.
Mas antes, antes há sempre aquelas ondas pequenas, aquelas ondinhas, pequeninas. Porque é que parecem tão pequenas quando as vemos recuar, porque raio, hun? Toda a gente sabe que quando voltarem voltam em força. A rapidez com que parecem desaparecer é a mesma com que (re)aparecem. E nós, feitos estúpidos, continuamos a escrever na areia. E o mar vem. E o mar volta a vir. E nós feitos parvos, porque sim, sabemos perfeitamente que estamos a tentar guardar no eterno o que é fugaz, continuamos a escrever na areia. I guess it's possible., I guess it might happen, from time to time.
O que é certo é que nem aqueles escultores, que têm ar de quem viveu no mar - porque fazem sereias com as mãos e pás de brincar, pás de criança -, conseguem fazer durar “muito tempo” o que tentam gravar na areia. Tiram uma fotografia àquilo que não está lá na manhã seguinte, porque choveu, ou assim.

Mas - é justo dizer que parece óbvio que - deve haver uma razão para continuarmos a abaixar-nos na praia como crianças para brincar com terra, embora pareça estúpido
Afinal de contas, toda a gente sabe que só se consegue escrever em areia húmida. Já tentaste com seca? Cimento, é igual. :)

O meu pulso ainda não está assim tão perdido.
O meu cérebro ainda se aguenta.
Eu ainda cá ando, acho eu.

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