quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Grizo

Era algo de que não me podia esquecer.

Há momentos em que estou tão fria que nem água a ferver sinto na pele. Nada queima. Nada sequer toca ou atinge.
É como se se criasse uma camada de gelo entre a pele e os ossos. Alguma espécie de metal do árctico nas veias, a substituir o sangue. Corre pelo corpo todo e os arrepios são mais que muitos.
No entanto não é o meu coração que o bombeia. Há quantos milhões de anos? Não sei, mas parece que há um dinossauro dentro de mim a bafejar-me com chamas feitas de espigões a mil graus abaixo de zero. Zero - 0.
Não adianta sequer pensar em tirar a roupa e atirar-me para um mar de lava, que seja. Nada aconteceria. A temperatura talvez me derretesse o corpo, mas
eu continuaria ali, simplesmente a flutuar, como se fosse imune ao calor.
Brrrrr. Tremo como se choques eléctricos me fossem dados de cinco em cinco segundos.
~~~~
(5 segundos)
~~~~
Percebes?
As minhas veias começam a doer, parece que incham como gelo e vão explodir.
Imagino os efeitos especiais disto num filme. A dor nem se ia notar na expressão facial embebida pela maquilhagem.
Não adianta ligar um aquecedor quando se está mergulhado numa banheira de gelo. Ou adianta?
Experimenta ligar uma ventoinha no deserto.
(Ou mergulha na areia, como queiras.)
Depois diz-me o que achaste!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

I wanna float.


Juro que precisava mesmo de escrever. Talvez nem tanto pela necessidade em si, aquela que se sente por vezes até aos ossos, mas mais por descargo de consciência. Como tal, não será de esperar nada de agradável à leitura. Nunca é, de qualquer maneira.

Mas sabe tão bem escrever. Admito o egoísmo do meu acto, mas não é coisa que me incomode muito. Prefiro guardar com as letras a relação de cumplicidade que mantemos do que esquecer-me delas com a simples desculpa de que não tenho nada para escrever. Escrevo, se é que se pode chamar escrever a isto. Monto puzzles, misturo, crio o que, porém, já foi inventado? Talvez qualquer coisa assim.
Elas não se queixam. Deixam-se dançar. Como se fossem ondas na água. E eu continuo a atirar os seixos ao rio, à procura do ricochete perfeito. E ele nunca acontece. Mas como li numa entrevista a um dos escritores que mais admiro (mesmo que pouco saiba dele),: se não for para sermos o melhor escritor do Mundo, não vale a pena escrever.
Não gosto deste texto. Mas está aqui, e não o apago. É ditar o que penso, e pensamentos são algo que a memória só arrasta com o tempo.
As palavras continuam a dizer-me que são importantes, e que querem ser ouvidas.
E eu continuo ainda agora a ler textos em que com elas disse o que sentia, e ainda que mais ninguém os perceba por inteiro, eu lembro-me de cada detalhe que as compôs, cada história por trás do que disse, tudo, tudo como se fosse hoje.
Isso constrói-me. Mal ou bem, faz quem sou. Mais não posso pedir, mais não posso exigir a simples invenções da mente humana.


'E agora, continuas a respirar? Vê lá se não fazes das tripas coração, que as tuas entranhas não podem virar pedra. E depois, que seria feito do teu estômago? Todo aquele ácido a fluir sobre rocha nua não podia dar bom resultado. Não. Nem penses nisso.
Não adianta esvaíres-te em sangue para nada. Não te cortes, não mutiles o teu corpo com metáforas. Ele não fez nada para além de suportar todas as tuas dores e emoções com o seu físico. Agradece-lhe. Esteve contigo.
Quantas vezes não te contorceste para além da tua elasticidade?, Como se quisesses encolher, como se fosse possível de algum modo voltares a ser um embrião que se enrola sobre si próprio e fica imune a tudo o que o rodeia. Quantas vezes, quantas vezes a dor não tomou conta de ti? Falsa amiga. Quantas vezes não te fez ela crer que o Mundo ia acabar ali? E quantas vezes não deixaste o teu Mundo acabar ali, assim? E antes de mais, tenta contar quantas vezes não tiveste que voltar a abrir os olhos para um dia novo, depois de pensares que tinhas adormecido para sempre, para lá de tanto sofrimento? Admite que te apeteceu matar alguém. Matar aquela dor que fazia pouco da tua cara, esmurrada contra o punho dela.
'Lá que apeteceu, apeteceu, mas estás a falar para quem, mesmo?
'Não interessa, pensei que era para ti.
'Ok.
'Ok. Ok. KO.
Não ligues., Sabes perfeitamente ao que me refiro. E se não tem importância agora, é óptimo. Mas tu estavas lá quando aconteceu. (Delírios.) E sentiste. E agora, a cada sorriso, a cada gargalhada, a cada formigueiro no coração, apetece-te, com pena, voltar atrás e esticar o dedo do meio ao martírio, ao tempo perdido a crescer. Não era mais fácil ser feliz enquanto se era pequeno?
'Era. Pelo simples facto de não saberes como ser feliz. Não tinha manual de intruções e tu não o seguias. Limitavas-te a ser feliz, com aqueles momentos deploráveis de tristeza pelo meio em que, por exemplo, não te deixavam comer aquele chocolate apetitoso que era para guardar para as visitas. Ou quando estava ali o brinquedo dos teus sonhos, mas era tão caro em dinheiro de adultos que nem que esbogalhasses os olhos a chorar to davam. Que crueldade.
Mas esses momentos agora parecem honestamente felizes, não parecem?
'Sim, até esses parecem bons. Adoro o teu cérebro. Ou mente, ou o que quer que seja(s). Nem sonhas. Como é que te lembras de tudo? Falas como se estivesses do lado de lá da câmara, e tivesses filmado todos os meus passos. Contas-mos de uma forma distorcida. Passos de formiga, passos de gigante. Saltos de canguru. Quedas arrastadas de humano. Mas estão lá.
Ensinaram-me andar. (Estou a usar a 1ª pessoa do singular, já viste?)
Para a vida continuar. Impediste-me de ficar amarrada ao que me sugava. Ensinaste-me a fugir. Melhor que isso, bem melhor que isso, obrigado por me ires ensinando, ainda que devagarinho, a avançar. Não sei se o fazes bem. Mas que elas passam, passam.

Já me esquecia dos tempos em que não sabia escrever.
,
'Anda, está na hora de voltarmos para casa.

:)

"
She always rights the wrong
For me
Baby" ^^